Todo cirurgião vascular tem aquele paciente que chegou com o Flebon na bolsa, após tomar por meses, às vezes anos, esperando que as varizes “sumissem” ou que parassem de aparecer. E a pergunta que vem junto é sempre a mesma: “Doutor, isso funciona mesmo?”
A resposta curta é: depende do que você está esperando que ele faça. Continue a leitura e explicarei melhor.
O que é o Flebon?
Flebon é o nome comercial de um medicamento à base de diosmina e hesperidina, dois flavonoides extraídos de frutas cítricas, vendidos juntos sob diferentes marcas, como Daflon e Varicell. Ele pertence a uma classe chamada flebotônicos, substâncias que atuam no tônus das paredes venosas e na microcirculação.
A ideia é que ele ajude a aliviar o inchaço, a sensação de peso e o desconforto causados pela má circulação. Só que, embora pareça funcionar na teoria, na prática a história é um pouco mais complexa.
O que as revisões científicas mais recentes mostram
Em 2024, uma revisão rápida publicada pela Revista Científica da Escola Estadual de Saúde Pública de Goiás avaliou as evidências sobre o uso de diosmina e hesperidina na insuficiência venosa. A pesquisa selecionou duas revisões sistemáticas que atendiam aos critérios de inclusão e chegou a uma conclusão cautelosa: embora exista alguma evidência de benefício, os resultados ainda não são consistentes o bastante para tratar esses flavonoides como solução definitiva. A literatura diverge em alguns aspectos, há risco de viés nos estudos analisados e ainda são necessárias pesquisas mais rigorosas.
Isso não significa que a eficácia esteja descartada. Significa que, até agora, a resposta mais honesta é: ainda não sabemos com certeza.
O que diz o parecer técnico do Judiciário
Outro documento técnico, elaborado pelo Núcleo de Apoio Técnico do Judiciário do Distrito Federal para subsidiar uma demanda judicial de fornecimento do medicamento, foi ainda mais direto.
Segundo a análise, não havia evidências consistentes sobre a eficácia e a segurança da diosmina associada à hesperidina que justificassem um parecer favorável à sua indicação naquele caso.
O próprio documento reconhece que estudos mostram possível benefício sobre o edema e alguns sintomas da insuficiência venosa quando os flebotônicos são comparados ao placebo. Ao mesmo tempo, aponta que esses medicamentos podem estar associados a mais efeitos adversos e que não houve diferença significativa na cicatrização de úlceras venosas.
Traduzindo: o medicamento pode até oferecer algum alívio sintomático, especialmente em relação ao inchaço e à sensação de peso nas pernas. Mas a evidência sugere um benefício limitado. Ele não deve ser tratado como solução definitiva, não substitui compressão, mudanças de hábito ou cirurgia quando indicadas, e não é apresentado como capaz de desfazer varizes ou reverter o problema estrutural por trás da doença.
Um comprimido não conserta uma válvula quebrada
Aqui está o ponto que poucos explicam: varizes não são causadas por falta de Flebon no organismo.
Elas surgem porque as válvulas dentro das veias param de funcionar direito, permitindo que o sangue volte e se acumule em vez de seguir seu caminho normal de retorno ao coração. É um problema mecânico, estrutural.
Um comprimido não conserta uma válvula com defeito, assim como nenhum remédio reconstrói uma dobradiça quebrada numa porta.
O que ele pode fazer é amenizar o incômodo enquanto essa válvula continua falhando.
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O Flebon então não ajuda no tratamento de varizes?
Para algumas pessoas, os efeitos da medicação já representam uma melhora real na qualidade de vida: menos sensação de peso, menos inchaço no fim do dia. Para outras, o efeito é discreto ou inexistente, e a expectativa criada pela publicidade do produto não se confirma na prática.
Isso não significa que o Flebon seja inútil, significa que ele ocupa um lugar específico no tratamento: suporte sintomático, não solução.
Sozinho, ele raramente resolve o problema de quem já tem varizes visíveis ou sintomas mais avançados.
O uso prolongado tem riscos?
O uso prolongado sem orientação médica não é isento de riscos. A combinação pode causar desconforto gastrointestinal, dor de cabeça e, em casos raros, reações alérgicas.
Nada grave na maioria das vezes, mas motivo suficiente para não tratar o medicamento como algo “natural e sem consequência”, mesmo vindo de plantas cítricas.
O que fazer se você já usa Flebon
Nenhum flavonoide, por melhor que seja a marca ou a dose, substitui uma avaliação vascular feita por quem entende do assunto. Só um cirurgião vascular consegue dizer, com exame na mão, se o seu caso pede apenas controle de sintomas ou se já existe um problema estrutural que precisa de outro tipo de tratamento.
Antes de continuar tomando Flebon por anos sem saber se está realmente funcionando para o seu caso, vale marcar uma consulta e fazer essa avaliação. É a diferença entre tratar o sintoma no escuro e tratar a causa com clareza.
Agende sua avaliação vascular e descubra o que realmente está acontecendo nas suas veias.

